
No Brasil, ainda hoje, não existe equipamento especificamente desenvolvido para a colheita de sementes de plantas forrageiras, que sejam fabricados em escala comercial. Deste modo, diante da necessidade do emprego de métodos mecânicos de colheita, as colheitadeitas, normalmente utilizadas em grandes culturas, surgem corno alternativa bastante lógica, por várias razões :
- podem ser utilizadas na colheita de sementes de diversas espécies forrageiras cuja época de colheita coincide com períodos de ociosidade deste equipamento; - abre possibilidade de se trabalhar com
áreas e volumes de sementes maiores;
- requer menos mão-de-obra.
- é um equipamento muito caro e que requer manutenção e operadores especializados; - sua utilização implica em maiores dificuldades na fase da secagem das sementes. 2.1. Manejo de Plantas Forrageiras para Produção de Sementes e o Uso de Colheitadeiras Automotrizes A homogeneidade do desenvolvimento, a diminuição - tanto quanto possível - dos períodos de emergência das inflorescências e de florescimento, com o objetivo de concentrar o período de maturação das sementes e a redução da altura das plantas, podem ser obtidas por meio de determinadas práticas de manejo e têm reflexos diretos sobre eficiência da colheitadeira. Por sua vez, o efeito destas práticas sobre a produção de sementes depende da época e da intensidade de suas aplicações. Depende, também, das condições climáticas, da espécie ou variedade, das condições do solo, etc. Destas práticas, as que mais afetam a eficiência da colheitadeira são: 2.1.1. Preparo do Solo O preparo uniforme do solo, a eliminação de cupinzeiros, troncos, valetas e de outros obstáculos são de grandes benefícios à eficiência da utilizaçã o de coIheitadeiras; 2.1.2. Controle de Ervas Daninhas A presença de plantas invasoras em áreas de colheita de sementes podem representar sérios aborrecimentos ao uso das colheitadeiras, já que estas podem diminuir ou mesmo anular a eficiência dos mecanismos de alimentação e trilhagem das colheitadeiras; 2.1.3. Irrigação O florescimento de certas espécies, como o Macroptilium atropurpureum cv. Siratro por exemplo (Hopkinson e Loch, 1973), pode ser controlado por meio de irrigação em áreas ou épocas de clima seco. Por proporcionar um florescimento intenso e homogêneo, o desenvolvimento e maturação das sementes obedecem o mesmo padrão, o que aumenta sobremaneira a eficiência da colheitadeira; 2.1.4. Corte/Pastejo Os efeitos de corte ou pastejo de áreas de plantas forrageiras, quando adequadamente aplicados podem se refletir em aspectos bastante favoráveis à utilização de colheitadeiras automotrizes, tais como:
maior sincronização de florescimento, menor intensidade de acamamento das plantas, atraso do florescimento, o que possibilitaria escalonar a colheita em áreas extensas, ou evitar períodos de clima desfavorável e aumentar a eficiência dos mecanismos de alimentação e trilha. 2.1.5. Queima A queima dos resíduos após
corte de uniformização no início da estação
chuvosa, no caso de gramíneas forrageiras perenes, pode resultar
em maior produção de sementes pelas plantas, eliminação
de resíduos, maior densidade de perfilhos por unidade de área,
higienização da cultura e menor intensidade de acamamento.
O efeito sobre a eficiência da colheitadeira
é consequente.
2.1. 6. Adubação A correção das deficiências de fertilidade do solo é fator fundamental para uma boa produção de sementes, independente do método de colheita a ser empregado. Entretanto, no caso das gramíneas forrageiras, a eficiência de métodos mecânicos de colheita pode ser positivamente afetada por adubações nitrogenadas, desde que aplicadas em épocas e níveis adequados. Isto porque o nitrogênio se constitui em verdadeira "chave" da produção de sementes de gramíneas forrageiras e seus efeitos podem ser observados não apenas na produtividade das áreas de produção, como também na uni formidade e sincronização do florescimento, fatores que interferem na eficiência da colheitadeira. O emprego de doses elevadas deste elemento, entretanto, implica em maiores riscos de acamamento. Tanto as quantidades quanto as formas de aplicação (se parcelada ou não) são fatores condicionados por economicidade e tipo de solo. Assim, apesar de diversas gramíneas responderem muito bem a doses de 100 kg de N/ha, nos dias de hoje é provável que para a maioria delas esta dose não seja econômica. Por sua vez, solos arenosos, de drenagem excessiva podem requerer a divisão da dose do adubo nitrogenado em duas aplicações. A época ideal para a aplicação de nitrogênio invariavelmente coincide com o momento em que a área é vedada aos animais e/ou sofre corte de rebaixamento ou de uniformização. Quando a dose é dividida em duas aplicações, a primeira delas deve coincidir com a época acima mencionada e a outra deve ser por ocasião da iniciação floral ou "emborrachamento". 2.1.7. Rolagem A rolagem de áreas cultivadas com espécies de colheita difícil, tais como soja perene (Neonotonia wightii), siratro (Macroptilium atropurpureum cv. Siratro), Desmodium intortum e Dolichos lab-lab, com um rolo de ferro liso ou de pneus velhos pode aumentar enormemente a eficiência do uso da colheitadeira (Humphreys,1979). A razão disto é que este método exerce certo controle sobre as ervas daninhas de porte alto e, mais importante, causa uma elevação das inflorescências acima da massa vegetal. Deste modo a quantidade de massa vegetal verde que deve passar pelos mecanismos de alimentação e trilha da colheitadeira é bastante reduzida e sua operação passa a ser muito mais eficiente e menos problemática. Esta prática deve ser aplicada em época tal que permita a recuperação das plantas para a produção de sementes, ou seja, cerca de 3 meses antes da época prevista de colheita. 2.2. Adaptações e Regulagens de Colheitadeiras Automotrizes para a Colheita de sementes de Forrageiras As vantagens da utilização de colheitadeira automotriz na colheita de sementes de forrageiras já foram discutidas no item 2. Entretanto, em se decidindo sobre seu emprego, o primeiro fator a ser levado em conta é sua adequação às condições em que ela deverá operar. Isto é bastante Iógico, pois nenhuma das muitas marcas e modelos de colheitadeiras comercialmente disponíveis no Brasil foram desenvolvidas com o objetivo específico de colher sementes de plantas forrageiras. É certo que as adaptações e regulagens possíveis em cada modelo de colheitadeira automotriz podem aumentar sua eficiência. Entretanto, o efeito destas dependem de fatores tais como condições climáticas durante a colheita, manejo aplicado à área, modelo ou marca do equipamento, espécie ou variedade a ser colhida e até mesmo a hora do dia em que a colheita está ocorrendo Na verdade, porém, o fator mais importante na colheita de sementes de forrageiras com colheitadeira é a experiência do operador, para o que, até presentemente, não se encontrou substituto. Algumas regulagens e adaptações são discutidas abaixo. O produtor deve atentar para o fato de que algumas delas são de caráter permanente, podendo portanto interferir na utilizaçã o do equipamento, ou de parte dele, na colheita de grãos ou sementes de outras culturas. 2.2.1. Velocidade da Máquina Todo o possível deve ser feito para manter constante a alimentação do mecanismo de debulha ou trilha (cilindro de barras ou dentes e côncavo). Isto pode ser conseguido pela uniformidade das plantas, largura da lâmina de corte, altura de corte e velocidade da máquina colhedeira. Para uma colheitadeira com uma lâmina de 3 m de comprimento, admitindo uma condição onde as plantas se apresentem uniformes, pouco densas, onde por exemplo, 5 t/ha de peso fresco estio sendo colhidas (sementes + raios folhas), a velocidade da colheitadeira deverá situar-se entre 2 a 3 km/hora. Tal é o caso, por exemplo, de diversas gramíneas forrageiras por ocasião da primeira colheita de sementes, após seu estabelecimento. Entretanto, em culturas densas (8 t / h a ) ela deverá ficar entre 1,1 e 1,4 km / hora (California University. Extension Service, s. d.). Ou seja, 1ª marcha para culturas densas (em geral leguminosas) e 2ª marcha para culturas menos densas (gramíneas). Na verdade, a densidade da massa vegetal (folhas, forragem) tem pouca influência sobre a determinação da velocidade adequada de trabalho nas situações em que as inflorescências se posicionam acima das folhas, tal como é o caso de diversas gramíneas, já que o corte deve ser feito acima das folhas e abaixo do cacho. Sendo o custo/hora de trabalho um fator de grande relevância na utilização de colheitadeira automotriz, torna-se necessário considerar que uma maior velocidade de operação pode resultar em maior volume de sementes colhidas por hora de trabalho, o que significa menor custo por quilograma colhido. Entretanto, tais velocidades implicam em maiores riscos e, o que pode ser muito importante, em maiores perdas de sementes, o que, em outras palavras, significa menor produção por unidade de área. 2 2.2. Lâmina de Corte Tanto quanto possível, a lâmina
(Fig. 1) deve cortar apenas o necessário evitando desta forma a
entrada de material verde e úmido, que diminui a eficiência
da trilha. Assim, por exemplo, no caso de plantas alta s como setária
Kazungula e capim colonião, a lâmina deve ser posicionada
tão alto quanto possível, de forma a cortar só os
cachos.
Nas situações em que as plantas se apresentam muito altas, como por exemplo em áreas não pastejadas ou cortadas de setária Kazungula e capim-colonião, pode acontecer que a lâmina de corte precise ser posicionada tão elevada quanto possível. A altura máxima permitida pelo comando na plataforma do operador, entretanto, pode não ser satisfatória, por permitir o corte ainda excessivo de folhas. Alguns modelos de colheitadiras permitem aumentar esta altura em cerca de 20-30 cm, por meio de uma simples troca de parafusos no suporte da base do pistão elevador da plataforma, que fica apoiado no eixo das rodas dianteiras. 2.2.3. Molinete Esta peça posiciona as plantas de modo a facilitaro corte pela lâmina. Suas barras podem ser substituadas por escovas ou lâminas de borracha rija, de modo a reduzir seu impacto sobre as inflorescências. Tratam-se, entretanto, de modificações permanentes que podem restringir a utilizaçã o desta peça a um certo número de espécies. Sua velocidade deve ser baixa, de modo a evitar um número excessivo de pancadas nas inflorescências, o que, dada a facilidade com que as sementes degranam, pode resultar em perdas consideráveis. A regulagem da sua altura é função das alturas das plantas e da lâmina de corte. Se a distância entre a barra de corte e o topo das plantas for pequena, o molinete deve ser regulado baixo. Quanto ao posicionamento horizontal desta peça, este também depende da altura das plantas a serem colhidas. Por exemplo, no caso das leguminosas, ou das gramíneas quando acamadas, ele deve ser adiantado em relação à barra de corte de tal modo a possibilitar que os ganchos levantadores, fixados nas barras do molinete, ergam as plantas e facilitem o corte. 2.2.4. Sem-Fim da Plataforma Principalmente no caso das leguminosas de hábito trepador (siratro, soja perene, p.ex.), é conveniente que se diminua o número de dedos retráteis para apenas 2 Iocalizados na posição central e que se estenda o curso normal da espiral do sem-fim para até mais próximo dos dedos retráteis remanescentes. Estas são formas de se reduzir bastante os problemas de "embuchamento", freqüentes na colheita de sementes deste tipo de planta. 2.2.5. Cilindro Trilhador Esta peça promove a remoção das sementes dos cachos ou vagens, friccionando ou batendo o material colhido contra o côncavo. Existem dois tipos básicos de cilindros trilhadores, o de barras e o de dentes rígido cada um com seu côncavo correspondente. Na colheita de sementes de plantas forrageiras, a prática tem mostrado que o tipo de dentes rígidos é o mais adequado, por resultar em menos problemas com "embuchamentos" do mecanismo de trilha. Apesar deste tipo de cilindro trabalhar igualmente bem em outras culturas como soja e arroz, alguns proprietários ainda preferem manter o cilindro de barras por entenderem que o de dentes pode resultar em uma produção mais "suja" e, portanto, mais problemática nas fases de secagem e beneficiamento. Ambos os tipos de cilindro s podem ser regulados quanto à velocidade e distância (abertura) relativa ao côncavo. Alguns modelos permitem regular a distância nas posições anterior e posterior do cilindro em relação ao côncavo, enquanto que outros modelos permitem a regulagem de uma distância única. Teoricamente, a maior eficiência na trilha se obtém com a menor velocidade e maior distância possíveis do cilindro com relação ao côncavo. A razão deste fato é que deve ser evitado que o material vegetal seja muito picado - o que significa que o cilindro deve ser mantido a baixas velocidades ou adequadamente distante do côncavo - já que isto resulta em menor quantidade de resíduos junto com as sementes. Regra geral, sempre que for observado um número muito grande de sementes maduras ainda ligadas às inflorescências no descarte do saca-palha, a velocidade do cilindro deve ser aumentada ou a distância cilindro/côncavo diminuída. A experiência de alguns produtores da Austrália, (Humphreys, 1979) sugere que, no caso de gramíneas, a velocidade do cilindro deve situar-se entre 900-1000 rpm (rotações por minuto) e distâncias relativas ao côncavo de 2 a 6 mm na posição posterior e 3 a 13 mm na posição anterior do cilindro. No caso de leguminosas tropicais, entretanto, uma velocidade de 1150 rpm e aberturas de 3 a 6 e 6 a 13 mm, respectivamente nas posições posterior e anterior do cilindro, são consideradas boas. De um modo geral, uma velocidade do cilindro ao redor de 1000 rpm é boa e o aumento da distância entre o cilindro e o côncavo em culturas que "embucham" (entopem) mais, parece recomendável. 2.2.6. Saca-PaIhas Tal como sugere o nome, este mecanismo é responsável pelo descarte do material trilhado. É muito importante que ele seja limpo frequentemente. 2.2.7. Peneiras A regulagem das peneiras deve ser feita em função do tipo de semente que está sendo colhida, da regulagem do cilindro batedor, da taxa de alimentação do mecanismo de trilha, do tipo de planta e de variações climáticas durante o dia da colheita. Norma geral, no caso de sementes muito pequenas, a peneira superior deve permanecer pouco aberta e a inferior tão fechada quanto possível. Ambas devem ser limpas pelo menos uma vez por dia. Esta regulagem deve ter como objetivo principal a maior recuperação possível de sementes e não a obtenção de sementes tão limpas quanto possível, uma vez que, normalmente, a maior parte das impurezas podem ser removidas durante a fase do beneficiamento das sementes. A preocupação em se obter sementes limpas na colheita, se bem que pode resultar em maiores facilidades no processo de secagem, em geral resulta em produtividades menores devido a perdas excessivas. Não se deve permitir que haja retorno excessivo de material que não passa através da peneira inferior, já que a capacidade do transportador que retorna este material para o mecanismo de trilha pode ser ultrapassada, causando problemas. 2.2.8. Ventiladores Considerando-se que o tamanho da maioria das sementes de forrageiras é pequeno, o ventilador deve permanecer parado ou, pelo menos, a entrada de ar deve ser restrita ao máximo possível. Entretanto, nas situações em que o ventilador utilizado, o fluxo de ar deve ser regulado de modo a permitir o máximo aproveitamento das sementes maduras e não no sentido da obtenção de sementes limpas. O fluxo de ar deve ser dirigido do centro para a frente das peneiras. |